Familiares, amigos e milhares de fãs comparecem ao velório de Belchior em Fortaleza
"É um poeta que fala muito de liberdade, da juventede que sonha, que
tem muita energia e luta por dias melhores. Além do grande poeta que
era, ele usava a sua letra para lutar por um mundo melhor. E viver um
mundo melhor, porque a gente sonha, mas a gente quer viver esse mundo
melhor", disse o governador. "Inspirou muita gente a sonhar, viver e
lutar", completou.
O ex-governador do Ceará e ex-ministro Ciro Gomes, em visita o local,
relembrou a amizade que teve com o cantor na juventude. "É um camarada
vocacionado para poesia. Eu conheci a profundidade da sua poética,
sintonizada no tempo. É um filósofo poetando como muito raramente vai se
achar na língua portuguesa. Ninguém interpretará jamais o Ceará, os
brasileiros, os jovens, como Belchior. É imortal. "
Mais cedo, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, afirmou que
Belchior cantou os "valores de Fortaleza". "Grande parte da história de
Fortaleza é cantada por Belchior. Quantas músicas de Belchior não tem os
sabores, os valores da cidade de Fortaleza cantada pela sua poesia.
Belchior era um poeta, um músico, um compositor, com muita cultura, para
o nosso privilégio, e com sucesso para muito além da fronteira do nosso
Ceará. Cabe a nós agora, com homenagens, celebrarmos a vida e a obra de
Belchior."
O corpo partiu de Sobral, cidade natal do artista, e chegou à capital
cearense por volta das 12h30, seguindo no carro do Corpo de Bombeiros
por ruas da capital até o Centro Dragão do Mar. O cortejo passou por
avenidas como Luciano Avenida Luciano Carneiro, Treze de Maio, Pontes
Vieira, Desembargador Moreira e Abolição.
Desde cedo, há uma longa fila no local, com encontro de amigos, música,
e fãs que viajaram de outras cidades para a despedida do ídolo. O
caixão foi conduzido pela Polícia Militar, que prestou uma homenagem ao
cantor na chegada ao local. Durante o trajeto, os fãs cantaram e
aplaudiram. Até o início da noite desta segunda, cerca de três mil
pessoas passaram pelo local.
Velório em Sobral
Fãs fizeram fila para chegar ao palco do teatro e se despedir do
cantor, ao som de suas músicas executadas por músicos cearenses. Antes
das 6h, eles já esperavam o início do velório na praça em frente ao
teatro, decorado, na fachada, com imagens do rosto do Belchior e um de
fragmento de uma de suas músicas. Seis familiares do artista, de
Fortaleza, participaram da cerimônia, além da mulher Edna Prometheu.
Moradores também foram receber o corpo no aeroporto da cidade e
acompanharam o carro do Corpo de Bombeiros até o teatro.
Causa da morte
Belchior foi encontrado morto em casa ontem, em Santa Cruz do Sul (RS),
aos 70 anos. Ele vivia na cidade de 126 mil habitantes do Vale do Rio
Pardo, a cerca de 150 km de Porto Alegre, com a mulher, que o encontrou
morto. Ela disse à polícia que Belchior não tinha problemas nem tomava
medicamentos. Ele se sentiu mal na noite de sábado, se queixou de muito
frio à esposa e disse que ia descansar no sofá da sala, que ele usava
para fazer suas composições, segundo vizinhos.
Segundo amigos, o artista vivia há quatro anos em Santa Cruz do Sul -
dos quais cerca de dois anos na casa onde morreu, cedida por um amigo.
Belchior continuava compondo, embora não tivesse planos de fazer shows
ou gravar discos, e traduzia suas canções e obra de Dante Alighieri. O
Governo do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza decretaram luto oficial de
três dias pela morte de Belchior.
Análise preliminar indica que o cantor cearense morreu em razão do
rompimento da artéria aorta, segundo a delegada Raquel Schneider.
Schneider falou com o médico do IML da cidade de Cachoeira do Sul,
responsável pela necropsia em Belchior. De lá, seu corpo foi levado para
Venâncio Aires para ser embalsamado.
Trajetória
Na infância no Ceará, Belchior estudou piano e música coral, e
trabalhou no rádio em sua cidade natal. Seu pai tocava flauta e
saxofone, e sua mãe cantava em coro de igreja. Mudou-se em 1962 para
Fortaleza, onde estudou Filosofia e Humanidades. Também chegou a estudar
medicina, mas abandonou o curso em 1971 para se dedicar à música.
Começou apresentando-se em festivais pelo Nordeste. Depois do sucesso
de "Mucuripe", mudou-se para São Paulo, onde compôs trilhas sonoras para
filmes e passou a fazer shows maiores e aparições em programas de
televisão. Em 1974, lançou seu primeiro disco, "A palo seco", cuja
música título se tornou sucesso nacional e ganhou versões ao longo da
história, como a de Oswaldo Montenegro e da banda Los Hermanos.
Outros artistas também regravaram sucessos de Belchior, entre eles
Roberto Carlos ("Mucuripe") e Erasmo Carlos ("Paralelas"), Engenheiros
do Hawaii ("Alucinação"), Wanderléa ("Paralelas") e Jair Rodrigues
("Galos, noites e quintais"). Elis Regina foi uma de suas maiores
intérpretes: além de "Como nossos pais", gravou "Mucuripe", "Apenas um
rapaz latino-americano" e "Velha roupa colorida".
Em 1982, o cantor lançou "Paraíso", que tem participações dos àquela
época ainda jovens artistas Guilherme Arantes, Ednardo Nunes, Jorge
Mautner e Arnaldo Antunes. Fundou sua própria gravadora e produtora, a
Paraíso Discos, em 1983. Ao longo da carreira, Belchior teve mais de 20
discos lançados.
Fonte, G1

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