O ator americano Kirk Douglas morreu, nesta
quarta-feira, aos 103 anos. Quem confirmou a informação foi seu filho, o
também ator e produtor Michael Douglas, em uma rede social.
"É com tremenda tristeza que meus irmãos e eu anunciamos que Kirk
Douglas nos deixou hoje aos 103 anos", escreveu Michael, no Instagram.
"Para o mundo ele era uma lenda, um ator da era do ouro do cinema que
viveu para além dos seus próprios anos dourados, um humanitário cujo
comprometimento com a justiça e com as causas em que acreditava criaram
um padrão para todos nós".
"Mas para mim e para meus irmãos Joel e Peter ele era simplesmente
nosso pai, para Catherine, um maravilhoso sogro, para seus netos e
bisnetos seu avô amoroso, e para sua mulher, Annie, um marido
maravilhoso", disse ainda Michael.
"A vida de Kirk foi bem vivida, e ele deixa um legado para o cinema
que vai sobreviver por gerações, e uma história como filantropista
reconhecido que trabalhou para ajudar o público e trazer paz para o
planeta", afirma a nota. "Deixe-me terminar com as palavras que lhe
disse no seu último aniversário e que para sempre permanecerão
verdadeiras: Pai, eu te amo muito e sou muito feliz de ser seu filho."
Kirk Douglas diante do cartaz do seu filme mais famoso, "Spartacus", de 1960
Foto: AFPA vida de Kirk Douglas
Kirk Douglas nasceu Issur Danielovitch numa localidade chamada
Amsterdam, próxima a Nova York, em 1916. Viveu 103 gloriosos anos e
virou um ícone de Hollywood. Foi um ator de grandes papéis, um produtor
audacioso e até um diretor competente.
A essa altura, você deve estar pensando - quem é esse cara? Pois foi
com o pseudônimo de Kirk Douglas que Issur se tornou conhecido. Teve um
filho que também adotou o pseudônimo e, como Michael Douglas, prosseguiu
a tradição artística familiar. Michael até ganhou o Oscar de melhor
ator - por Wall Street, Poder e Cobiça, de Oliver Stone, em 1987.
O velho Kirk nunca foi "melhor ator" para seus comparsas de
Hollywood, mas não lhe faltaram honrarias. Seus pais foram imigrantes
judeus de Mogilev, então Império Russo, hoje Bielorússia. Na "América",
Issur virou Izzy Demsky, mas já adotara o pseudônimo que se tornaria
famoso antes de ingressar na Marinha, durante a 2ª Grande Guerra.
Antes disso, foi pugilista. E, para conseguir uma bolsa de estudos,
inscreveu-se no grupo de atuação da St. Lawrence University. Tinha por
colega uma certa Lauren Bacall, que lhe deu uma força e ajudou para que
conseguisse um papel no filme The Strange Love of Martha Ivers, de Lewis
Milestone, lançado no Brasil como O Tempo não Paga. O resto é história.
Kirk Douglas recebeu três indicações para o Oscar - por O Invencível,
de Mark Robson, em 1949; Assim Estava Escrito, de Vincente Minnelli, em
1952; e Sede de Viver, de Minnelli, de novo, em 1956. Perdeu todas, mas
em 1995 a Academia outorgou-lhe um Oscar honorário “por 50 anos de
modelo moral e criativo para a comunidade cinematográfica de Hollywood”.
Sua carreira estourou numa época em que o filme noir estava no auge. O
tipo físico do ex-pugilista e seu sorriso cínico ajustavam-se aos
papéis - Fuga ao Passado, de Jacques Tourneur; Sacrifício de Uma Vida,
que Dudley Nichols adaptou da Oresteia; e Estranha Fascinação/I Walk
Alone, de Byron Haskin, todos de 1947.
Os gêneros diversificaram-se. Fez grandes westerns - Homem sem Rumo,
de King Vidor; Sem Lei sem Alma e Duelo de Titãs, John Sturges. Foi
Ulisses no épico do italiano Mario Camerini e participou de outra
memorável aventura - 20 Mil Léguas Submarinas, de Richard Fleischer.
Tornou-se um cada vez melhor ator dramático e os papéis com Minnelli - o
produtor ambicioso de Assim Estava Escrito e o atormentado Van Gogh de
Sede de Viver - somente provaram isso.
Consagrado como ator, Kirk tornou-se produtor. Fez Glória Feita de
Sangue, de Stanley Kubrick, e chamou de novo o cineasta quando se
desentendeu nas filmagens de Spartacus com o diretor original, Anthony
Mann. Fez história em Hollywood quando Otto Preminger e ele deram
crédito de roteirista a Dalton Trumbo.
No filme de Jay Roach com Bryan Cranston, Trumbo - Lista Negra
(2016), o público acompanha a história sobre como o escritor, acusado de
comunista, sofreu perseguição na indústria, durante o macarthismo, e
começou a trabalhar sob pseudônimo ou tendo os trabalhos assinados por
outros. Douglas e Preminger quebraram a sinistra lista negra ao devolver
a Trumbo seu nome, dando-lhe o crédito dos roteiros de Spartacus e
Exodus.
Trumbo ainda escreveu Sua Última Façanha para o ator e produtor -
David Miller dirigiu o western contemporâneo. Em 2001, ao receber o Urso
de Ouro honorário do Festival de Berlim, Kirk surpreendeu dizendo que
era seu filme favorito. Sob a direção de Preminger, fez um de seus mais
belos filmes - e talvez a obra-prima do autor, In Harm’s Way/A Primeira
Vitória, de 1964. Mas os anos 1990 foram duros com ele.
Perdeu um filho para as drogas (Eric Douglas), sofreu um acidente de
helicóptero e ficou com o corpo queimado, teve um derrame. Nem por isso
deixou-se abater. Com a ajuda de um fonoaudiólogo, fez emocionados
discursos ao receber seu Oscar honorário e o Urso da Berlinale.
Tornou-se uma lenda. Nos anos 1970, comprou os direitos de um livro que
pretendia adaptar e interpretar, mas transferiu os direitos para o
filho.
Michael Douglas produziu Um Estranho no Ninho, Jack Nicholson fez o
papel e o filme ganhou todos aqueles Oscars que o cinéfilo sabe, em
1975. No mesmo ano, Kirk, como diretor, fez o vigoroso western Posse -
Ambição Acima da Lei, sobre linchamentos no Velho Oeste. Teve uma bela
vida.
Kirk Douglas possui uma estrela na Calçada da Fama, seu nome integra o
Hall of Fame do National Cowboy & Western Heritage Museu, em
Oklahoma City, e existe até uma rua com seu nome em Palm Springs,
Califórnia. Acima de tudo, são perenes seus personagens inesquecíveis no
imaginário do público.
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