Há exatos 130 anos, o Brasil deixava de ser um
império para se tornar uma República, após um golpe de Estado
político-militar, liderado por marechal Deodoro da Fonseca para
destituir o imperador Dom Pedro II. Em 1889, no Ceará, os ares
provincianos e as fortes secas que atingiram o Estado durante o século
XIX – disseminando boa parte da população conforme estimativa de censos
realizados no período – fizeram com que movimentos políticos pouco
prosperassem diante da preocupação do povo com a subsistência, numa
tentativa de driblar a fome e a pobreza.
Apesar disso, movimentos republicanos ocorriam em importantes cidades
do Estado, principalmente em Fortaleza, já elevada à posição de Capital
do Ceará desde 1726. De acordo com o professor do curso de História da
Universidade Federal do Ceará (UFC), José Pinheiro, intelectuais, a
maioria deles abolicionistas e ligados à maçonaria, e militares foram os
principais líderes de manifestos pró-República no Estado.
“No Ceará, além de tenente Benévolo, nós tínhamos um grupo muito
forte ligado à maçonaria, como João Cordeiro, Antônio Bezerra, atuando
pela derrubada da monarquia. A maçonaria teve um papel muito forte no
País inteiro, porque a República foi instalada com uma visão
positivista, com a ideia de que o progresso estava ligado a educação”,
explica.
No entanto, o professor explica que, mesmo com movimento relevante na
Capital, o Ceará não foi um Estado com muita contribuição política para
a proclamação da República como Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e
Bahia, que tinham movimentos expressivos pelo fim da monarquia. A seca,
o analfabetismo, a pobreza e a crise na cotonicultura (cultivo de
algodão) foram fatores que contribuíram para esse distanciamento da
população com movimentos nacionais, por prejudicar a situação econômica
da região e enfraquecer a sociedade.
“Após vários períodos de seca no século XIX, a população do Ceará
diminui drasticamente. Em 1872, nós tínhamos em torno de 700 mil
habitantes no Estado e, após a seca de 1877, essa população diminui em
quase 300 mil pessoas, tanto pela fome como pela imigração. Elas estavam
preocupadas com a própria sobrevivência, porque a maioria da população
era pobre”, relata.
Mudanças demoradas
O cientista político e também professor da UFC Cleyton Monte recorda
que, mesmo após a proclamação da República, as mudanças, principalmente
sociais e políticas, demoraram a ocorrer de forma efetiva no Ceará.
“A gente está falando de uma sociedade rural, com uma taxa de
analfabetismo de quase 85%, dominada pelo coronelismo e oligarquias.
Então, após a proclamação, isso permaneceu ainda por um bom tempo. Até
hoje, a gente tem coronelismo e oligarquias dominando a política. É algo
que ainda perdura, não só aqui como no Brasil”, ressalva o
especialista.
Cleyton conta que essas tradições político-familiares no Estado e no
cenário atual do País ocorrem até hoje por conta da nossa história. Ele
relembra que, mesmo após a proclamação, o poder político continuou na
mão de oligarquias, porque os que tinham direito ao voto eram pessoas
alfabetizadas, consequentemente com melhor poder econômico.
“O voto só se tornou universal com a Constituição de 1988. Antes,
apenas pessoas alfabetizadas podiam votar. As mulheres só conseguiram
direito ao sufrágio em 1945. Na época do império, ele era censitário, só
votavam os que tinham dinheiro”, conta.
O cientista acrescenta, ainda, que os índices de alfabetização e de
saúde melhoraram significativamente no Estado apenas após a
redemocratização (depois de 1985). “O primeiro hospital de alta
complexidade foi construído no governo do Tasso Jereissati, primeiro
governador do Ceará depois da Constituição de 1988. A educação do Estado
começou a se destacar por volta de 2008 e há mais de 10 anos nós
permanecemos com bons índices”.
Cleyton destaca, ainda, que, no período da ditadura militar
(1964-1985), apesar da alta repressão, o Estado teve grandes avanços,
embora atrasado quando comparados com outros entes federativos. No
período, o Estado começou a fornecer energia elétrica para vários
municípios do interior, criou o terminal de passageiros do aeroporto – o
que permitiu um maior turismo na região – e atraiu mais indústrias.
Crises da República
A instabilidade política no País durante os 130 anos, com diversas
intervenções militares, fez com que a República tivesse mais períodos de
crises do que de “normalidade”, conforme aponta Cleyton. No entanto,
ele salienta que, mesmo com falhas, hoje, nós temos uma democracia
efetiva.
Para ele, a polarização política no cenário nacional é normal na
nossa República quando há uma “transição de governo”. “Nós tivemos
desgastes de um ciclo, que foi o lulismo. E é muito difícil, no Brasil,
pela nossa própria história, ter uma transição de um ciclo para o outro
de uma forma pacífica, estável”, conclui.
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