A aprovação das regras para a divisão dos recursos da cessão onerosa
do pré-sal, ocorrida na Câmara na noite de quarta-feira (9), deve
significar prejuízo de cerca de R$ 183 milhões ao Ceará, em comparação
com o que havia sido aprovado no Senado Federal. A perda do Estado deve
ser a segundo maior no País, atrás apenas de Pernambuco, com R$ 191
milhões. Os cálculos são da comissão especial da matéria na Câmara dos
Deputados.
O resultado, porém, não gera só lamentações entre líderes cearenses. A
compreensão, agora, é que as regras poderiam ter sido ainda mais duras
com o Estado, caso tivesse prosperado uma articulação tocada por
partidos do Centrão, que queria liberar uma parte das verbas por emendas
parlamentares.
Relator da proposta das regras aprovada no Senado, o cearense Cid
Gomes (PDT) lamentou as perdas, mas ponderou que os governadores
participaram da articulação. “O governador Camilo participou da
negociação para essa regra. Se está ‘ok’ para ele, que é o mais
interessado, estou de acordo também”, disse o parlamentar.
O deputado federal Mauro Filho (PDT) participou do debate ocorrido no
plenário da Câmara. Segundo ele, os cálculos realizados pela comissão
especial da Casa mostram que as regras proposta pelo Senado resultariam
em um repasse para o Ceará de R$ 667 milhões. Após a mudança na Câmara, o
valor aproximado cai para R$ 483 milhões, cerca de R$ 180 milhões a
menos.
O parlamentar explica ainda que caso o leilão, que vai acontecer no
início de novembro, tenha um ágio superior a 5%, isso é regra do edital
do leilão, o valor de cada ente será repassado a metade até o dia 27 de
dezembro, a outra metade em junho de 2020.
Repasses
De acordo com o atual texto, o percentual previsto de 15% dos
recursos para municípios será mantido. Os recursos dos estados, objeto
da maior disputa entre governadores, serão divididos da seguinte forma:
10% pelos critérios do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e 5% para
compensar os estados exportadores pela Lei Kandir.
Pelos novos critérios, estados do Norte e Nordeste perderam recursos,
enquanto os do Sul e Sudeste ganharam. São Paulo foi o mais beneficiado
– a expectativa de arrecadação saltou de R$ 94 milhões para R$ 632,6
milhões, aumento de 573%. Também ganharão mais pela nova partilha os
estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, Minas
Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás e Espírito Santo.
Os demais estados perderam recursos entre uma proposta e outra, com
os piores cenários para Acre e Roraima. Individualmente, o Estado
brasileiro que mais deve arrecadar com o bônus do megaleilão do pré-sal é
o Rio de Janeiro: R$ 2,37 bilhões.
Os prefeitos poderão usar os recursos do pré-sal para investimentos e
para cobrir o rombo previdenciário, sem priorizar nenhuma das duas
necessariamente. Já os Estados terão de usar a verba obrigatoriamente
para os dois temas, sem um porcentual definido para cada uma delas. O
pagamento de precatórios ficou de fora da lista.
Entretanto, para usar em investimentos o ente federado deverá criar
uma reserva financeira específica para pagar as despesas previdenciárias
a vencer até o exercício financeiro do ano seguinte ao da transferência
dos recursos pela União.
Critérios
Na avaliação do deputado Eduardo Bismarck (PDT), a proposta sendo um
projeto de lei garantiu mais celeridade na tramitação. No entanto, ele
informou que o texto ainda corre o risco de alterações no Senado e
reforçou que a parte destinada aos prefeitos não pode ser mexida.
“O critério de divisão será pelo FPM que é o critério mais justo,
porque leva em consideração o índice de pobreza, então os municípios do
Ceará que tem índices de pobreza muito maiores receberão valores
maiores, dois, três, quatro milhões no município mais carente que não
tem água faz uma grande diferença”.
Em relação aos novos critérios para os estados, Bismarck considerou
que é um “repasse justo” para os estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste
que reclamavam por uma fatia maior nos repasses.
“Agora há um divisão mais justa, se for somente pelo FPE, por
exemplo, Ceará receberia R$ 1 bilhão, enquanto que São Paulo não
receberia nem R$ 100 milhões. Com esse novo critério, nosso Estado
continuará recebendo muito, mas outra parte do valor será pela Lei
Kandir que tem um olhar para os estados”, disse.
A possibilidade dos estados do Nordeste, Pernambuco, Ceará, Maranhão,
Piauí, Bahia e Alagoas receberem menos do que o previsto anteriormente
na proposta aprovada pelo Senado não agradou os governadores e alguns
parlamentares nordestino.
O governador do Piauí, Wellington Dias (PT), informou que o acordo
firmado entre Câmara e Senado, tirou cerca de R$ 1,7 bilhão da região
Nordeste. “Não teve como alterar com a correlação de forças na Câmara, e
agora depois de aprovado no Senado, a Câmara faz um Robin Hood
invertido, tirando dos mais pobres para pagar os mais ricos”, declarou.
O coordenador da bancada nordestina, Júlio César (PSD-PI), também alegou
que a mudança dos critérios de repartição compromete a fatia de
recursos para o Nordeste.
“O critério pelo FPE garantia a distribuição de renda para o mais
pobres, e o Nordeste agora é o grande prejudicado. Essa compensação pela
Lei Kandir vai dar um grande prejuízo, tinha que dar recursos para
aqueles que mais precisam. Nós representamos, 28% da população, não era
pra mudar o critério já acordado”, lamentou.
Apesar da previsão de perdas, o deputado federal José Guimarães (PT)
argumenta que os valores serão utilizados nos estados onde existe
geralmente déficit, que é a Previdência. “Se o Estado está tendo um
custo alto com Previdência aqui, em que todos os meses têm que injetar
recursos próprios, o dinheiro que virá servirá para investimentos. Foi
um ganho grande para o Ceará e o Nordeste”.
O deputado cearense Vaidon Oliveira (Pros) lamentou o fato do
Nordeste ter perdido recursos com a proposta. Ele atribuiu à perda ao
fato de que cada bancada estadual quis puxar uma parcela maior dos
recursos do pré-sal.
“Quando se fala de recursos para os estados, cada um quer levar para o
seu. Infelizmente, o Nordeste saiu perdendo, mas é melhor do que nada e
vem numa boa hora”, disse.
Estados mais beneficiados (com ganhos)
São Paulo: R$ 618 milhões
Minas Gerais: R$ 391 milhões
Rio Grande do Sul: R$ 279 milhões
Estados mais prejudicados (prejuízo)
Pernambuco: R$ 191 milhões
Ceará: R$ 183 milhões
Maranhão: R$ 172 milhões
Nenhum comentário
Comente Esta Noticia