O Governo demorou até os 45 do segundo tempo, mas
quando entrou em campo, foi para ganhar. Ontem (9), a Assembleia
Legislativa do Ceará aprovou o polêmico projeto de lei 85/19, de autoria
de Evandro Leitão (PDT), liberando a comercialização e o consumo de
bebidas alcoólicas nas arenas esportivas do Estado. O placar da partida
terminou com 23 deputados a favor do projeto e 14 contrários. Nos
bastidores, durante a sessão de ontem, parlamentares comentavam a ajuda
vinda do Palácio da Abolição para consolidar a votação em prol do
projeto de Evandro Leitão, ex-líder do Governo na Casa.
O cancelamento de viagem de um parlamentar que votaria a favor da
proposta e, principalmente, a ausência de, pelo menos, seis deputados
que já haviam se manifestado contrários ao projeto de lei confirmam a
ação governista em prol da aprovação.
O projeto será enviado hoje ao governador Camilo Santana (PT), com
prazo de 15 dias para a sanção. Pelas novas regras, nos estádios, fica
permitida a venda de até dois copos de bebida de no máximo 500 ml por
torcedor, mas nenhuma bebida poderá ter mais de 10% de teor alcoólico. A
venda começará duas horas antes das partidas e se encerrará 15 minutos
antes do fim dos jogos. A entrada de qualquer bebida alcoólica trazida
de fora do estádio segue vedada e, dentro da praça esportiva, cada
comprador precisará se identificar na compra.
Emendas
Vários parlamentares condicionaram seus votos à aprovação de emendas.
Dentre 19 apresentadas, 13 foram acatadas. A partir de algumas delas,
os responsáveis pela Arena Castelão terão que fornecer internet dentro
do estádio, um monitor a cada dois mil torcedores para informar as
regras para a venda de bebidas, e uma em cada cinco bebidas ofertadas
deverá ser artesanal e fabricada no Ceará.
Além disso, campanhas de conscientização sobre o uso abusivo de
drogas e contra diferentes tipos de discriminação devem ser financiadas
com o recurso das vendas. Deputados aprovaram ainda que a proibição da
venda e do consumo de álcool nos estádios está mantida nos dias de jogos
entre Ceará e Fortaleza, o "clássico-rei".
Na semana passada, conforme publicou o Diário do Nordeste, 22
parlamentares declaravam-se contrários à proposta, enquanto apenas 12
eram favoráveis. Outros oito parlamentares diziam estar indecisos e três
não haviam sido localizados para se pronunciar. Nos últimos dias,
entretanto, o governador Camilo Santana, que em 2017 já havia defendido a
medida, entrou em campo em favor do projeto.
Apesar disso, o líder do Governo, Júlio César Filho (PPS), foi à
tribuna liberar a bancada, e destacou que havia membros da oposição
apoiando a matéria e membros da base votando contra.
Clima tenso
Ao longo da manhã, o tema acirrou os ânimos na Casa. Na tribuna, o
primeiro a tocar no assunto foi Osmar Baquit (PDT). Segundo ele, não há
relação entre o álcool e a violência nos estádios. "O grande problema é
que estão achando que quem vai para estádio é marginal, e não é".
Já Apóstolo Luiz Henrique (PP) cobrou responsabilidade dos defensores
da medida. "Se for filmado alguém nesses estádios ferindo alguém,
matando alguém, vai preso. E a responsabilidade será cobrada de vocês",
disse. Baquit, João Jaime (DEM) e Evandro Leitão criticaram a fala.
Ao fim do dia, outro momento polêmico: o deputado Soldado Noélio
(Pros) disse que assessores do Palácio da Abolição fizeram pressão em
favor do projeto, ligando para parlamentares. Tin Gomes (PDT) rebateu.
"Não aceito policiamento de seu ninguém". Noélio pediu direito de
resposta e foi atendido. "Eu não culpei o Governo, apenas trouxe fatos à
tona", devolveu.
A discussão envolveu até mesmo parlamentares de outras casas, como
vereadores de Fortaleza e o senador Eduardo Girão (Pode). Após o
resultado, ele, que já foi dirigente de um clube, criticou a aprovação
do projeto, de autoria de outro ex-presidente de time de futebol no
Estado.
"O projeto 'Ceará Sem Drogas', da Assembleia Legislativa, foi
desfigurado dentro da própria Casa, e o pior, com a influência do
Governo", disse, em referência à iniciativa da gestão do ex-presidente
da Assembleia, Zezinho Albuquerque (PDT), que não pautou na última
legislatura projeto de teor idêntico ao aprovado.
MPCE promete ação contra lei
O projeto de lei foi aprovado na Assembleia Legislativa, mas vai
encontrar resistência do Ministério Público Estadual, caso seja
sancionado pelo governador Camilo Santana.
O promotor de Justiça Edvando França, coordenador do Núcleo do
Desporto e Defesa do Torcedor (Nudetor), disse que uma Ação Direta de
inconstitucionalidade (Adin) que questiona a proposta já está pronta.
“Eu não posso entrar enquanto não for lei. Tão logo o governador
sancione, a gente dá entrada no pedido para suspender os efeitos desta
lei”, afirmou.
Ele criticou o resultado da votação. “Nos tribunais não tem esse
joguete político que tem o Parlamento. Os parlamentares fazem acordos
políticos para um lado e para outro. Quando a questão fica jurídica, não
tem esse mesmo tom de discussão política”, comentou Edvando França.
Bastidores da sessão Briga de torcidas
Ao longo da manhã, defensores e adversários da liberação fizeram barulho
na tribuna da Assembleia a favor e contra a liberação da venda de
bebidas nos estádios.
Glória
Os adversários da proposta passaram boa parte da manhã cantando músicas religiosas enquanto exibiam faixas contra a liberação.
Arquibancada
Os defensores, quase todos torcedores que se mobilizaram pelas redes
sociais, adaptaram músicas de arquibancadas para a situação.
Bate-boca
Por mais de uma vez, os parlamentares, em especial os adversários da
liberação, iniciaram bate-boca com manifestantes presentes nas galerias
do plenário.
Nenhum comentário
Comente Esta Noticia