É cada vez mais grave a dificuldade financeira que os hospitais polos
enfrentam no interior do Ceará. Os gestores municipais solicitam ao
Governo do Estado uma ampla discussão sobre o problema que começou a se
intensificar desde 2015, com um cenário quase generalizado de receitas
abaixo das despesas.
A Associação dos Municípios do Ceará (Aprece) também reivindica
análise da questão, avaliação de gestão e um novo modelo de
financiamento para essas unidades regionais. Os atendimentos correm
risco de serem interrompidos parcialmente.
Problemas
Déficits mensais, atraso de pagamento de fornecedores, escassez de
medicamentos e de profissionais de Saúde são os problemas mais
recorrentes das unidades polos, além da dificuldade de transferência de
pacientes para hospitais de referência das macrorregiões.
Agora, o prefeito Ednaldo Lavor também anuncia a intenção de
"entregar" a unidade à Secretaria da Saúde do Estado. O déficit mensal
já chega à ordem de R$ 905 mil. "O Município sozinho não pode continuar
bancando essa conta", observou Lavor.
O secretário de Saúde de Iguatu, Rafael Rufino, foi taxativo ao
demonstrar o cenário atual na unidade de Saúde, "A luz vermelha acendeu,
já procuramos a Secretaria da Saúde do Estado, mostramos números e
indicadores que foram reconhecidos, mas ainda não nos deram retorno",
frisou. "Estamos muito preocupados porque, sem ajuda, caminharemos para o
caos".
Recentemente, houve uma reunião entre os gestores do Hospital
Regional de Iguatu com o secretário adjunto da Secretaria da Saúde do
Estado (Sesa). "Mostramos que temos uma Unidade de Tratamento de
Urgência (UTU) e a clínica traumatológica sem recebermos nenhum recurso
dos Governos estadual e federal", explicou Rafael Rufino.
Na região do Sertão do Salgado, o Hospital Regional de Icó enfrenta
quadro semelhante. "Temos um déficit em torno de R$ 400 mil mensais",
disse a chefe de Gabinete, Rosana Figueiredo. "O que recebemos do
Governo Federal (R$ 400 mil) e do Governo do Estado (R$ 312 mil) mal
cobre a folha de pagamento dos médicos".
Canindé
As dívidas também ameaçam os atendimentos no Hospital Regional São
Francisco de Canindé (Santa Casa). Os mais de 200 atendimentos diários
na unidade correm o risco de serem interrompidos. O problema está nos
custos para dar assistência a mais de 200 mil moradores de seis
municípios da região. "Triste e preocupado", o administrador da unidade
que é filantrópica, Frei Johannes Saning, apela aos governantes.
Com status de Hospital Regional, a unidade tem amargado déficit
mensal na casa dos R$ 300 mil. Os repasses dos órgãos públicos,
incluindo o Ministério da Saúde e secretarias do Estado e dos municípios
conveniados, beiram R$ 1 milhão. Entretanto, as despesas em cada mês
ultrapassam R$ 1,3 milhão. Há mais de um ano, a conta não fecha e a
dívida, principalmente com médicos e fornecedores, aumenta.
Déficit crescente
Defasagem da tabela de pagamento de procedimentos pelo Sistema Único
de Saúde (SUS), aumento constante das despesas (insumos, energia, folha
de pagamento) e manutenção do repasse de verbas estaduais e federais
agravam a diferença mensal entre despesas e receitas.
As unidades polos mantêm leitos constantemente lotados. "Esse é um
problema geral", adverte a diretora do Hospital Regional de Iguatu,
Marleuda Gonçalves.
O presidente da Aprece, Nilson Diniz, disse que o problema precisa
ser debatido e analisado pelo Governo do Estado, verificando a gestão,
os serviços ofertados, a qualidade e a aplicação dos recursos. "O
secretário de Saúde do Estado quer estabelecer uma nova política para as
unidades polos", pontuou. "É um problema que decorre do Programa
Pactuação Integrada (PPI) que não é revisto há dez anos".
A crise atinge hospitais polos regionais (36 unidades no Ceará) e
entidades filantrópicas. De acordo com o presidente da Federação das
Santas Casas de Misericórdias e Entidades Filantrópicas do Estado do
Ceará (Femice), Marcos Venicius Granemann, praticamente todas as 42
instituições filantrópicas filiadas enfrentam o mesmo problema.
A reportagem procurou o Ministério da Saúde e a Secretaria da Saúde
do Estado (Sesa), através de ligações telefônicas e de e-mails, todavia,
não foi atendida, até o fechamento desta edição.
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