O massacre nesta quarta-feira em uma escola pública na Grande São
Paulo expõe o grave problema da insegurança em estabelecimentos de
ensino. Os dois jovens assassinos, armados e encapuzados, entraram, sem
dificuldades, pela porta da frente da Escola Estadual Professor Raul
Brasil, em Suzano (SP), e abriram fogo a esmo no horário do intervalo,
em uma tragédia que deixou 10 mortos, incluindo os dois criminosos (um
atirou na cabeça do outro e depois se suicidou).
Eles carregavam um revólver calibre 38, um arco e flecha, uma besta
(arma medieval que dispara flecha), uma machadinha e explosivos. Não
foram abordados por vigia, segurança nem policial.
Os dois eram ex-alunos da escola e foram identificados como Guilherme
Tauci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25. No
colégio, eles mataram cinco estudantes, duas funcionárias e depois
morreram. Antes de chegar à escola, Guilherme foi à loja de veículos do
tio e o matou com três disparos.
A motivação do massacre ainda é investigada. A Polícia apurou que os
dois jovens faziam parte de um grupo que joga em rede o game Call of
Duty, de guerra, e neste fórum teriam planejado o crime. Os
investigadores estão ouvindo os pais dos rapazes sobre essa questão.
“Eles atiravam em qualquer pessoa que aparecesse na frente deles.
Estão dizendo que eles foram com uma lista pra matar, mas é mentira.
Eles não queriam algo de valor, ou vingança. Eles queriam matar todo
mundo”, disse uma aluna de 17 anos.
Armas
A tragédia serviu para que políticos de diferentes espectros
defendessem posições sobre a liberação de armas, tanto contrários quanto
favoráveis. O senador Major Olímpio (PSL-SP) afirmou que o massacre
teria sido evitado caso os funcionários da escola estivessem com armas.
“Para você enfrentar uns demônios armados desses só mesmo com
instrumentos semelhantes. Se a legislação no Brasil permitisse o porte
de armas, um cidadão de bem na escola, seja um professor ou um servente,
evitaria a tragédia, impedindo que prosseguissem a marcha da morte
deles”, disse.
Também senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) usou a tragédia para
criticar o desarmamento e, de quebra, a maioridade penal. “Meus
sentimentos a todos os familiares das vítimas covardemente assassinadas
num colégio em Suzano. Mais uma tragédia protagonizada por menor de
idade e que atesta o fracasso do malfadado estatuto do desarmamento,
ainda em vigor”.
Para o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, a
flexibilização da posse de armas, autorizada pelo presidente Jair
Bolsonaro, não tem relação com a tragédia, uma vez que o armamento usado
pela dupla de assassinos provavelmente não era legalizado.
“O evento em São Paulo não tem relação direta com os projetos
propostos pelo nosso presidente no seu programa de Governo e a partir da
sua assunção ao Planalto, capitaneados também pelo Ministério da
Segurança”, disse o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo
Barros.
Luto
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que foi ao local do
crime, decretou luto oficial de três dias no Estado, acompanhado de
bandeiras a meio-mastro.
“A cena mais triste a que eu já assisti em toda a minha vida. Fico
muito triste que um fato como esse ocorra aqui no Brasil e em São
Paulo”, disse.
“Crianças e jovens são o bem mais precioso de uma nação. É inadmissível
que sofram qualquer tipo de violência. O ambiente escolar deve ser
sagrado”, afirmou o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez.
Insegurança
Fora de São Paulo, o massacre foi assunto entre trabalhadores da
educação. “Vivemos em um País inseguro. O problema da violência não está
somente na falta de segurança dentro ou fora das escolas. Está nas
nossas condutas também. Por isso que temos que rever as políticas
públicas”, disse a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação
de Alagoas, Maria Consuelo. O Estado nordestino lidera o ranking
nacional de taxas de analfabetismo.
Mundo
Além da tragédia em Suzano, nesta quarta-feira houve no mundo outro
caso grave envolvendo escola. O prédio de quatro andares, onde
funcionava uma escola de educação infantil, desabou em Lagos, Nigéria,
deixando pelo menos oito mortos.
Embora não haja uma definição precisa de massacres em massa com armas
de fogo, há um consenso de que os EUA são o país com a maioria dos
crimes deste tipo no mundo, segundo o canal CNN. Muitas das vítimas são
crianças e adolescentes, mortas ou feridas em horário de aula.
A rede BBC noticiou que o ano passado foi o mais mortal em relação a
ataques a tiro em escolas, com 113 vítimas. Entre maio de 2017 e maio de
2018, foram quinze ocorrências em instituições no país.
O crime em Suzano traz à memória o massacre da escola de ensino médio
Columbine, no Colorado, em 1999, que entrou para a história como marco
desse tipo de violência. Foram 13 vítimas no crime que inspirou até um
filme, “Elefante”, do cineasta americano Gus Van Sant.
OUTROS CASOS Realengo (RJ)
Em abril de 2011, em Realengo, no Rio, 12 adolescentes morreram no
massacre da escola Tasso da Silveira. Eles foram vítimas de Wellington
Menezes de Oliveira, 23, que atirou contra as vítimas na sala de aula e
cometeu o suicídio. Em anotações, ele pôs a culpa pelo massacre nos que o
humilharam na adolescência
Goiânia (GO)
Um adolescente de 14 anos matou dois colegas e feriu outros quatro,
em outubro de 2017, em Goiânia. O jovem utilizou uma pistola .40 da mãe,
que assim como o pai é policial militar. Segundo a Polícia Civil, na
época, o adolescente foi motivado por bullying
Columbine (EUA)
No dia 20 de abril de 1999, os adolescentes Eric Harris, 18, e Dylan
Klebold, 17, mataram 12 colegas, um professor e se suicidaram, na escola
de ensino médio Columbine, no Colorado. A tragédia foi retratada no
documentário “Tiros em Columbine”, lançado em 2002 por Michael Moore.
Newtown (EUA)
No dia 14 de dezembro de 2012, na escola Sandy Hook, Adam Lanza, 20,
faz 27 vítimas na escola de ensino primário Sandy Hook, em Newtown, no
estado de Connecticut. Foram 20 crianças com seis e sete anos e
funcionários da instituição de ensino. Ele se matou.
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