As condições das rodovias estaduais e federais
que cortam o Ceará - que já eram precárias - pioraram nos últimos meses
com a chegada das chuvas. De Norte a Sul do Estado, uma cena se repete
nas estradas: buracos por toda parte. O Sistema Verdes Mares teve acesso
a mais de 30 trechos danificados, alguns deles estão intransitáveis ou
parcialmente bloqueados, como é o caso da CE-163 que dá acesso à Praia
de Mundaú, em Trairi. Crateras se abriram na estrada devido à força das
águas, e os veículos só conseguem trafegar em parte da via. Segundo o
secretário de Turismo de Trairi, José Maria Teixeira, o asfalto cedeu
após uma lagoa, que fica nas proximidades do trecho, encher com as
chuvas dos últimos dias. As obras de reparo devem durar 15 dias.
Parte da Rodovia CE-163, em Mandaú, foi arrastada pelas águas
Foto: Sheyla Castelo Branco
Um trecho da CE-176 que dá acesso às praias de Icaraí de Amontada e
Moitas, no litoral oeste do Ceará, ficou intransitável após as fortes
chuvas arrastarem parte da rodovia. Uma via provisória será aberta no
local para garantir a passagem de veículos.
As precipitações pluviométricas também expuseram a fragilidade de um
trecho da BR-230, entre a cidade de Campos Sales e Antonina do Norte.
Com aproximadamente 56 km de extensão, a rodovia apresenta muitos
buracos. "Tem alguns que parecem umas crateras, nos dois sentidos. Está
arriscado demais", conta o motorista Francisco José Pereira. A situação
não é diferente na CE-166, entre Nova Olinda e Santana do Cariri. Apesar
dos dois municípios serem importantes destinos turísticos na Região -
estão dentro do território do GeoPark Araripe -, a rodovia também está
com a malha danificada e, em alguns trechos, o asfalto está cedendo.
Outra rodovia que chama atenção é a CE-288, que liga os municípios de
Caririaçu e Aurora. Apesar de ter sido inaugurada há pouco tempo, em
julho de 2017, o asfalto também apresenta buracos após as chuvas deste
primeiro trimestre. Lá, há uma grande circulação de veículos pesados já
que é um dos principais acessos à BR-116. Um trecho de 47 km da CE-386,
entre as cidades de Crato e Farias Brito, está em situação análoga.
Inúmeros buracos põem em risco quem trafega pela estrada.
"É preciso tapar esses buracos logo porque o risco de acidente
aumenta, além de danificar os veículos, cortar pneus", reclamou o
representante comercial Flávio Duarte.
Fatores diversos
A chuva, no entanto, não é o único fator que agrava o estado de
conversação das rodovias. A falta de manutenção se evidencia quando, em
regiões com poucas volumes pluviométricos, a malha viária também está
bastante danificada.
Na Região Central do Estado e no Sertão de Canindé, as condições de
tráfego nas rodovias federais que cortam o local estão igualmente
precárias. O trecho mais crítico da BR-122, principal via de destino ao
sul do Ceará, está situado a partir do Município de Ibaretama até a
cidade de Banabuiú. "São 40 km que é praticamente impossível trafegar. A
gente fica fazendo zigue-zague para tentar desviar dos buracos, está
complicado", relata o crediarista Marciel Oliveira e Silva.
Crônico
Este cenário, no entanto, não é novo. No fim do ano passado, a
Confederação Nacional do Transporte (CNT) já havia identificado que
72,4% das rodovias cearenses têm algum tipo de deficiência em sua
conservação, levando em conta pavimento, sinalização e geometria da via.
O índice é o pior dos nove estados da Região Nordeste. O levantamento
foi realizado após a CNT ter percorrido 3.581 km em rodovias estaduais e
federais. O índice (72,4%) é superior ao que fora identificado em 2017,
quando a Confederação constatou que 60,6% das rodovias cearenses tinham
algum tipo de deficiência. O relatório deste ano ainda não foi
divulgado. O balanço deve sair no segundo semestre.
Prejuízo
A má conservação das rodovias não afeta somente os motoristas. Além
de colocar em risco a vida de quem trafega por essas localidades, a
malha viária deteriorada impacta negativamente no bolso do consumidor,
mesmo àqueles que estão bem distantes das estradas consideradas ruins ou
péssimas.
A explicação é simples. Mais buracos representam prejuízos aos
fretistas. Prejuízo sinaliza aumento no frete. E esse incremento é
repassado ao consumidor final. A equação, também simplória, é cruel com o
consumidor.
Conforme Antônio Nidovando Pereira Pinheiro, 2º vice-presidente da
Associação Cearense de Supermercados (Acesu), a realidade atual das
estradas do Ceará influencia no valor do transporte dos produtos. "Os
carros se quebram e esse custo acaba sendo incluído no preço da
mercadoria. Esse repasse é inevitável para o consumidor. Hoje, um frete é
aproximadamente 15% do valor da mercadoria, mas isso depende da carga
que está sendo transportada e do local de onde e para onde ela vai",
explica Pinheiro.
Condições precárias também foram encontradas na CE-085
Foto: Mateus Ferreira
A superintendente do Ceará do Departamento Nacional de Infraestrutura
de Transportes (Dnit), Líris Silveira Campelo Carneiro, explicou que,
desde o segundo semestre do ano passado, as empresas responsáveis pelas
obras de recuperação e manutenção das rodovias federais que cortam o
Estado começaram a abandonar os projetos. A justificativa dada foi o
encarecimento do preço de materiais betuminosos, utilizados na
composição asfáltica, que tornou inviável o cumprimento dos contratos.
Diante da situação, o Dnit iniciou, em janeiro, novos processos de
licitação para as quatro em situação mais crítica: 020, 122, 222 e 403,
citadas na matéria.
De acordo com a superintendente, já foi concluída a licitação e dada a
ordem de serviço, essa semana, para as três novas empresas contratadas
para as BRs 222, 403 e a 122. Os obras nas rodovias já começaram. Já na
BR-020, a empresa está em processo de assinatura de contrato e entrega
de documentação. Ao todo, vão ser recuperados 2.400 km de malha
asfáltica federal que corta o Ceará. O orçamento previsto é de R$ 52 mi.
Já o Departamento Estadual de Rodovias (DER) não respondeu as demandas até o fechamento desta matéria.
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