BRASÍLIA — Apesar das tentativas do governo de consolidar um nome que
una sua base na disputa pela presidência da Câmara, as duas principais
alas de aliados do Palácio do Planalto — o centrão e a antiga oposição —
intensificaram a troca de ataques, aumentando o risco de um racha que
deixe sequelas nesta eleição. De um lado, os apoiadores da candidatura
de Rodrigo Maia (DEM-RJ) acusaram seu principal rival, o líder do PSD,
Rogério Rosso (DF), de ser “o candidato do Eduardo Cunha”, peemedebista
que renunciou ao comando da Câmara quinta-feira, dois meses após ser
afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Na outra trincheira, os aliados de Rosso tentavam esvaziar a
candidatura de Maia classificando-o como “candidato do PT”. Isso porque
Maia busca votos no PT, no PDT e no PCdoB. Na noite de segunda-feira, a
bancada do DEM, em nota, indicou oficialmente o nome de Maia para a
disputa.
Os ataques começaram assim que Rosso anunciou sua candidatura, após
semanas negando que fosse entrar na disputa. Já com panfletos de
campanha em mãos, o líder do PSD negou ser o candidato de Cunha e atacou
Maia, que reagiu com críticas ao adversário.
— Eduardo Cunha não vota. O centrão, que dizem ter sido formado por
ele, tem uma série de candidatos. Além de eu não ter votado no Eduardo
Cunha, o conheci só nesta legislatura. Não topo vale-tudo, nunca topei.
Não pode um vale-tudo onde se fecha os olhos, se deixa de ser inimigo.
Não dá para acreditar nisso — disse Rosso, sem citar nominalmente o
adversário, que apoiou Cunha na eleição para a presidência da Câmara, no
ano passado.
— A Casa quer sair do ambiente de beligerância, mas há um grupo que
quer continuar mandando na base do atropelo. Não entendo o candidato,
que diz que tem mais de 200 votos, entrar agredindo. Não é papel de
favorito. É de desesperado. O próximo presidente precisa pacificar a
Câmara. A Casa quer alguém que desmonte a equação do centrão — respondeu
Maia.
Apesar de os tucanos sinalizarem que apoiarão Maia, a tentativa de
colar sua imagem ao PT gerou incômodo, já que seria difícil para o PSDB
justificar uma aliança que envolva o tradicional adversário. No final da
noite de segunda, porém, os petistas decidiram que não apoiarão Maia no primeiro turno.
No entanto, não descartam apoiá-lo no segundo turno, caso ele dispute
contra Rosso. O ex-presidente Lula pediu que os petistas não apoiem
alguém ligado a Cunha.
ELEIÇÃO MARCADA PARA AS 16H DE QUARTA-FEIRA
Ao
menos o temor do governo de que a eleição fique para o segundo semestre
foi descartado, após o presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão
(PP-MA), decidir que a escolha do novo presidente da Casa será na quarta-feira, às 16h.
Os registros de candidaturas serão aceitos até o meio-dia do mesmo dia,
e cada candidato terá dez minutos para discursar. Até a noite de
segunda-feira, dez candidatos haviam registrado seus nomes.
A briga entre as duas alas da base aliada despertou ainda mais a
preocupação do Palácio do Planalto. Reservadamente, alguns auxiliares do
presidente interino, Michel Temer, tem simpatia pela candidatura de
Rosso, que já vinha sendo trabalhada, discretamente, há algumas semanas.
No entanto, afirmam interlocutores de Temer, o pior para o governo
neste momento seria colocar sua digital em alguma das campanhas e sair
derrotado.
— Se ele (Rosso) for eleito, será muito bem recebido. Temer não está
alheio à disputa, mas também não vai botar o DNA dele em nenhuma
candidatura — resume um assessor de Temer.
Domingo à noite, em conversa com integrantes da cúpula do PSDB, Temer
externou sua preocupação com um racha na sua base e reafirmou que não
vai interferir diretamente na disputa. No cenário atual, com tantos
candidatos, sendo a maioria de partidos aliados ao governo, o Palácio do
Planalto trabalha para sair ileso, já tendo em vista que não conseguirá
unificar sua base em torno de um nome.
Fonte, O Globo
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